sábado, 1 de maio de 2010

Pessoa


______________________________


Tenho a mania de transformar meus passos em narrativa. O movimento mais banal eternizado em linhas ainda sem rumo. É uma mania minha. Parece que assim minha vida se torna algo importante, capaz inclusive de atrair a atenção de um narrador. Deste modo, alguém se preocupa com o destino do personagem protagonista da história de minha vida. Depois disso, parece que minha vida sempre se passou debaixo do tapete; e agora tenho as chagas reveladas, de um corpo pútrido, feridas purulentas, a cútis anêmica; velado solitariamente o cadáver de finos fios de cabelos desregrados e sebosos; de olhos esbugalhados em busca de luz, as pupilas dilatadas; a boca entreaberta de lábios ressequidos e rachados, dos dentes podres: a face de rugas de um doente terminal.

Uma vida em terceira pessoa, como alguém voando ao meu redor.

2 comentários:

Helena Tarozzo disse...

mas o narrador é vc, arquiteto. não há como a vida passar por debaixo do tapete. há?

Comentador Fiel disse...

Só não há cura para a morte, sempre existe a possibilidade de se assumir o controle de volta.