segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Exercitando-me eu mesmo

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Eu; não-eu; Então, lá fora
Outro; outrém; vai ver outrora
Tu, talvez, se vá agora
Eu; há muito fui embora.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Polvilho


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Aquele gostinho salgado na boca, como água do mar. Gostinho mastigado de infância; de infância mitigada e quase esquecida. A boca fica pedindo um pouco mais, e os dentes trituram aquele pedaço de passado que derrete na língua; a anatomia da boca não foi feita pra guardar memórias... E eu quase esqueci que eu caminhava de volta pra algum lugar. Mas o saco na minha mão, e a saudade na boca, derretendo e indo em volta. Agora lembrei que era uma daquelas noites quentes dessa primavera doida e seca, quase claustrofóbica, que nem todo mundo sabe; e aquela brisa velha e deformada quase não balançava meus cabelos. Mas minha língua balançava remoendo um pouco do que sobrava daquela massa branca presa nos bréquetes do aparelho, duas coisas de crianças que são insustentáveis juntas. Enfim, foi nessa noite, eu me lembro bem, que eu vi que estava tudo bem, e aquela noite abrigava tantas pessoas naquele meio de vazio, que eu me senti sendo parte de uma unidade como não acontecia há muito tempo, vendo que tudo estava no lugar, estava tudo bem. E senti pela primeira vez que estava tudo em ordem.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Frio na barriga


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Escrevi seu nome com as letrinhas da sopa...

Depois de vomitar ela todinha.

sábado, 7 de agosto de 2010

Ter pra perder.

Um dia todo mundo teve
um aperto no peito,
uma dor de barriga
e um vazio na cabeça;
os pés pesados,
as mãos vadias
e uma tara escondida;

Todo mundo tem
uma mulher pra amar;
uma cachaça para beber
em copo de vidro,
de plástico,
ou na boca mesmo;

uma boca pra beijar,
um corpo pra se esfregar,
um tesão doido pra matar;

a barriga faminta,
a criança chorando,
o trabalho corrido;
o dia a dia,
o dia,
o dia;

Todo mundo tem
uma morte digna,
de gente,
de bicho,
ou de nada mesmo.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Ponto final

Não dou ponto sem vírgula.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Viramundo



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Pôs-se a perambular pelos campos colhendo flores silvestres. Desceu vales, galgou montanhas, até que, morto de cansaço, deixou-se cair no capim e adormeceu sob a luz das primeiras estrelas, com um sorriso nos lábios. Era um sentimento novo o que lhe enchia o coração.


Fernando Sabino

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Enxadrado


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É um desafio antes de tudo sair escrevendo assim sem muita razão. Acho que já errei, na verdade, agora a pouco esse ponto final veio como uma vírgula, e esse período já nasceu de um erro. É como se eu estivesse jogando xadrez: cada movimento se pauta nos movimentos futuros do adversário. Sempre foi assim, nunca foi tão fácil quanto a gente conseguia fazer. É um grande desafio, sim; antes de tudo saber por que raios eu coloquei um ponto-e-vírgula agora a pouco. Raios, sempre perdi no xadrez pro meu irmão, estou agora apanhando de você. Esse jogo é muito mais seu do que meu. E esse texto tão insoso e sem razão de ser é só mais um exemplo de que eu perdi a batalha. Aljubarrota. Eu Português, você Espanhola! Ahá! Touché! Olé! E o ponto-e-vírgula que eu esqueci ali atrás? Não é fim, nem começo. Parece tanto com a gente. Falando de a gente, eu sempre lembro de "agente", e hoje sei a diferença muito bem, dagente e de agente; ou de agente e de a gente; quanta gente no fim, não é mesmo? E pra que tanto lero lero, falando de tanta baboseira, se no fim acaba tudo no xeque-mate? E o maldito ponto-e-vírgula devia ser extinto, ou a gente tem uma pausa pra respirar ou termina logo com isso. Céus! Chega! Já me sufocou essa brincadeira de escrever sem pautas, sempre fui péssimo com caligrafia, e escrever em linhas tortas nunca significou nada para mim além de uma lembrança constante da minha tremedeira. Já você me lembra daquela época que passava correndo pertinho de mim, ventando meu cabelos, e parava destruidora nos outros. Eu me sentia protegido, e um pouco delicado. Só agora que eu vejo que cada vez que você passava, ardia um pouco, sangrava um pouco, de tão cortante e incisiva; cortou tanto que hoje calejou grande parte do meu espírito pioneiro. De pioneiro não resta mais nada: meu alazão foi-se embora, minha armadura enferrujada no canto, meu fiel escudeiro está bêbado, e vendi minha alma ao demônio em troca de uma bela mulher; que fugiu com meu irmão. Estou só. Só.