
The very essence of romance is uncertainty.
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Tenho a mania de transformar meus passos
Uma vida em terceira pessoa, como alguém voando ao meu redor.
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É claro que a ausência foi sentida. Foi doída. Jogo de gato e rato, sempre sem vencedor. Foi uma semana do cão; sem noite nem dia; sem choro nem vela. Manhãs pesadas, de ossos congelados e frágeis; de pele seca e grudenta, de corpo colado à cama; olhos que ardem não pelo vento cortante, mas por salmoura e pranto. As pernas não respondem aos estímulos: seguem seu caminho, me levando aonde não quero ir; a garganta seca impede o grito, e o desespero fica contido numa redoma intocável. Tardes velando o leito do amado morto, buscando em banalidades alguma satisfação que preencha, ao menos por um instante, o vazio. O corpo cansado, não tem consciência do quanto dói; as juntas fazem barulho, arranha, risca, enrosca, rasga. A papelada que vai se acumulando, fazendo pilhas de procrastinação, que, com muito talento, foram erguidas por aquele que agora padece de um pouco de atenção. O ser vazio adentra a noite, enchendo-o de vida; coração batendo veloz na expectativa de ouvir o telefone tocando, ou o celular vibrando, fazendo vibrar consigo a mesa, o chão e as paredes, e o morador. Troca os canais da televisão, como se não estivesse nada passando. Folheia uma revista com nenhum artigo descente. “Não se fazem publicações como antigamente”. O telefone mudo. Vai até a cozinha, despeja água gelada pela garganta pelo bico da garrafa mesmo. “Não tem ninguém vendo... Se ela visse isso, acharia natural. Minha mãe não.”. A mãe enche a caneca de água e leva ao fogo. A mão! Saudades da mãe... Do irmão, do pai... Saldade. “É, faltou sal hoje no arroz...”. Verdade é que ta tudo sem sal, sem gosto, sem graça. A roupa acumulando no tanque. O telefone nem toca mais! Faz silêncio, como se ninguém estivesse aqui, e o chão de granito escuro congela os pés, que acabam doendo de tanto frio. Sempre tive frio nos pés. “Azar...”. O dedão cutuca um floco de poeira, que escapa e vai se esconder em um canto, junto aos demais. Ficam flocos de poeira pelos cantos, sujando as meias, as calças e as cuecas do mal aventurado que experimenta o contato com o chão congelante. O telefone tocou. A água ferveu. “Alô?”. “Oi.”. ”O que ta rolando?”. “Nada...”. Pois é, nada ta rolando. O telefone fica mudo. Descansa no gancho. A roupa no tanque. Um balde cheio de água, um pouco do sabão em pó que faz minhas mãos descascar. Despeja a água turva e tudo vai embora pelo ralo, para voltar, talvez no futuro, com a chuva que me atormenta. Um raio. O chão tremeu. O celular nunca mais tocou.

Confiança. Principal ingrediente na mistura dos relacionamentos humanos. A fundação necessária para edificar qualquer experiência. A primeira pedra para enfrentar a vida. "O que nos impede de nos atirarmos com confiança e alegria para as experiências do mundo? Por que temos tanto medo de nos entregarmos num relacionamento? E, mais que tudo, será que dá para mudar esse nosso eterno pé atrás com a vida?"
Aquela criança que sonhava em voar, um dia amarrou aos bracinhos galhos, folhas e fitas em um arranjo de asas, subiu no galho mais alto daquele velho carvalho no quintal de casa, encheu o peito de ar, e sentiu-se pronto para desafiar os gritos do irmão mais novo, os berros do pai e o choro da mãe, mas acima de tudo, a própria gravidade. O primeiro passo em falso para atingir aquela aquarela do poente, e por um instante acreditar que tudo aquilo era possível, e, como os passarinhos que ilustravam seus livros de desenhos, ele voaria para o Norte quando o inverno chegasse; batendo suas asas, voando não perto do mar, evitando ser engolfado pelas ondas, mas nem perto do Sol, para que a cêra de suas asas de Ícaro não derretessem. Com um saldo de dois braços quebrados e um dente a menos no sorriso, a criança nem viu o chão chegar perto, cada vez mais perto; encontrou apenas a dor, mas o sucesso daquela experiência era garantido. Nada daquilo poderia ser se não fosse a confiança dele, nele mesmo. O sucesso e o fracasso de sua experiência, delineado por um fio tão sublimado quanto a fronteira entre o azul do céu e o do oceano.
Aquela criança, que alguns anos antes aprendia a andar, passo ante passo, o esboço de uma corrida de braços abertos, para depois se jogar nos braços dos pais. Aquele bebê em aprendizado confia sua vida, sua segurança aos pais. Jogar-se de braços abertos, correr o risco de se esborrachar, confiar em alguém; são coisas que desde os primeiros passinhos, estamos tentados a fazer. A própria palavra, confiança, tem sua etimologia misteriosa, do latim con fides, isto é, com fé. E é esse o exercício que nos confere mais coragem, que do próprio nome sugere ter o coração na ação. Tal coração que por estar amargurado, pode manter nossa confiança escondida do mundo, em uma retroação, se comparada àquela criança em aprendizado que todos nós fomos.
Na falta do coração cometemos crimes -hediondos muitas vezes- contra nós mesmos. Praticado com extrema violência e com requintes de crueldade e sem nenhum senso de compaixão ou misericórdia por parte de seus autores, nós mesmos, tolhimo-nos de confiança e mantemos os braços atados para viver no marasmo da reclusão. Em troca de uma frágil estabilidade, adquirida por um compromisso que, muitas vezes, pode nos manter presos, atados, algemados no mesmo lugar.
Eu não sei qual crime eu cometi. Mas eu pago a fiança.