segunda-feira, 28 de junho de 2010

Presente


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Lembro sempre daquela criança que gostava de presentear. Nada mais do que uma lembrança, ou um simples agrado, que ainda eram presentes, de valor inestimável. Lembra daquele relógio de areia que um dia ganhei? A areia que escorregava não delimitava intervalo nenhum; caia escrevendo uma palavra ou frase que marcava meu dia; virando o relógio a palavra mudava. O gênio inventivo da criança que desenvolveu um dispositivo movido à estática, que -não me pergunte como- criava frases e palavras apenas com o atrito da areia. Perdi muito tempo naquele brinquedo. Aquele presente se perdeu, nunca mais o encontrei, talvez ficou preso em alguma quina do meu passado. Quando encontrei esse presente preso em minha memória, veio o menino engastilhado junto, sempre com aquela cara de moleque, aquela eterna piada no olhar. Deixei escorregar aquela criança que tinha em mim.

Lembra daquele presente que um dia dividimos? É, aquele quadro que eu te dei! Lembra dele como lembra de mim: com um vidro na frente, minha silhueta embaçada pelo frio que faz lá fora. Deixa-o em um canto bem escondido do seu passado: quem sabe você o esquece lá, e me esquece junto. Deixa-me virado de costas pra que eu possa fazê-lo também. E um dia, você vai encontrar aquele presente, lembrança do passado apagado, com o vidro embaçado, e não vai lembrar que um dia nossas vidas se cruzaram.

Talvez você lembre daquela criança que gostava de presente, e não daquele homem que vivia no passado.

sábado, 26 de junho de 2010

Galhofas

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Decidi evitar o destino mais cruel que a morte: a seriedade.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Todo o Bem do mundo



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Agathón. O que é bem, o Bem, um princípio supremo, summum bonun. A busca incessante do indivíduo pela satisfação; no campo inteligível, a verdade e razão; no campo sensível a luz e seu senhor, o Sol. Sobre a verdade e a razão que paira a discussão do limite do Bem como objeto dependente do logos, fundamental para a perpetuação do raciocínio e, por extensão, da razão. Pari passu, sobre a luz e sua origem, paira um grande breu, tanto no campo físico, pela total verticalidade das cidades, quanto na falta de luminosidade no pensamento e raciocínio contemporâneo.

O filme trata justamente do Bem social, tido por muitos filósofos como a razão e o raciocínio, em um mundo fantástico metaforicamente representado pelos livros. A “cidade-livro” é um exemplo do agathón urbano, onde o logos e os cenários urbanos acontecem simultaneamente em um espaço comum. Contudo, o contraste com a realidade percebe que, embora haja razão atualmente, ela encontra-se reclusa a um cenário paralelo das cidades. Como bem podemos observar, o conhecimento está aprisionado em instituições paralelas à realidade da grande maioria dos transeuntes, inacessíveis a essa parcela da sociedade.

Essa segregação é explorada no vídeo, ao construir um paralelo entre a “cidade-livro” e o cenário metropolitano atual. Evidenciando a harmonia entre o cidadão, a cidade e o conhecimento, o livro permite a criação de um cenário urbano que suporte essas três dimensões do Bem discutido no filme. Em gritante contraste, o perfil da cidade contemporânea não agrega tal tridimensionalidade, deixando lacunas em branco na composição do agathón.

A visão platoniana do Bem, como “aquilo para que todas as coisas tendem”, é explorada no final do filme, com a elevação da câmera, em um sentido otimista sobre toda a “falta do Bem” explorada durante os 4 minutos e 40 segundos de filme. Se aquele universo da realidade, paralelo à razão, é a tendência para que a sociedade se dirige, este é o sentido do Agathón na cidade contemporânea. Desse modo, traduzo o conformismo e a simplicidade adotada na maioria das decisões e reflexões atuais como sendo tudo o que é bem, e o princípio supremo da sociedade contemporânea.

Assim sendo, será que o Bem como primeiramente idealizado inexiste na cidade? Ou a restrição à razão e ao conhecimento é o Agathón, a tendência das coisas?

Nota do autor: Talvez o baixo aprimoramento técnico e o curto prazo para edição fizeram do meu vídeo uma grande interrogação para todos os presentes na exibição. Faz-se necessário ressaltar a expectativa criada, durante a exibição, por filmes com teor humorístico. Dessa forma, uma apresentação experimental passa a assumir um tom relativamente austero que pode ter causado alguma má impressão. Mesmo assim, pude captar enquanto tocava que a experiência de musicar um vídeo sobrepondo sonoridades torna tudo mais confuso, como a cidade em que vivemos, Bem ou Mal...

domingo, 16 de maio de 2010

Sunny day


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The very essence of romance is uncertainty.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Quer que eu explique?



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Eu sou o último homem a ostentar o direito de ser pessimista.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Sujeira

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Não tenho mais vontade de contar minhas histórias.
Nem de esconder minhas mentiras.

Deixo o mundo sabendo que eu sou um mentiroso.
E minto com tamanha habilidade, que acredito no que digo. E a verdade é uma meia mentira, e a mentira, uma meia verdade. Tenho medo de encontrar quem realmente está ao meu lado: cansado e com a cabeça doendo. Dá pra entender como essa cidade cansa. À noite, a cidade dança. Com o Sol, a cidade mansa.

sábado, 1 de maio de 2010

Pessoa


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Tenho a mania de transformar meus passos em narrativa. O movimento mais banal eternizado em linhas ainda sem rumo. É uma mania minha. Parece que assim minha vida se torna algo importante, capaz inclusive de atrair a atenção de um narrador. Deste modo, alguém se preocupa com o destino do personagem protagonista da história de minha vida. Depois disso, parece que minha vida sempre se passou debaixo do tapete; e agora tenho as chagas reveladas, de um corpo pútrido, feridas purulentas, a cútis anêmica; velado solitariamente o cadáver de finos fios de cabelos desregrados e sebosos; de olhos esbugalhados em busca de luz, as pupilas dilatadas; a boca entreaberta de lábios ressequidos e rachados, dos dentes podres: a face de rugas de um doente terminal.

Uma vida em terceira pessoa, como alguém voando ao meu redor.