sábado, 26 de junho de 2010

Galhofas

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Decidi evitar o destino mais cruel que a morte: a seriedade.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Todo o Bem do mundo



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Agathón. O que é bem, o Bem, um princípio supremo, summum bonun. A busca incessante do indivíduo pela satisfação; no campo inteligível, a verdade e razão; no campo sensível a luz e seu senhor, o Sol. Sobre a verdade e a razão que paira a discussão do limite do Bem como objeto dependente do logos, fundamental para a perpetuação do raciocínio e, por extensão, da razão. Pari passu, sobre a luz e sua origem, paira um grande breu, tanto no campo físico, pela total verticalidade das cidades, quanto na falta de luminosidade no pensamento e raciocínio contemporâneo.

O filme trata justamente do Bem social, tido por muitos filósofos como a razão e o raciocínio, em um mundo fantástico metaforicamente representado pelos livros. A “cidade-livro” é um exemplo do agathón urbano, onde o logos e os cenários urbanos acontecem simultaneamente em um espaço comum. Contudo, o contraste com a realidade percebe que, embora haja razão atualmente, ela encontra-se reclusa a um cenário paralelo das cidades. Como bem podemos observar, o conhecimento está aprisionado em instituições paralelas à realidade da grande maioria dos transeuntes, inacessíveis a essa parcela da sociedade.

Essa segregação é explorada no vídeo, ao construir um paralelo entre a “cidade-livro” e o cenário metropolitano atual. Evidenciando a harmonia entre o cidadão, a cidade e o conhecimento, o livro permite a criação de um cenário urbano que suporte essas três dimensões do Bem discutido no filme. Em gritante contraste, o perfil da cidade contemporânea não agrega tal tridimensionalidade, deixando lacunas em branco na composição do agathón.

A visão platoniana do Bem, como “aquilo para que todas as coisas tendem”, é explorada no final do filme, com a elevação da câmera, em um sentido otimista sobre toda a “falta do Bem” explorada durante os 4 minutos e 40 segundos de filme. Se aquele universo da realidade, paralelo à razão, é a tendência para que a sociedade se dirige, este é o sentido do Agathón na cidade contemporânea. Desse modo, traduzo o conformismo e a simplicidade adotada na maioria das decisões e reflexões atuais como sendo tudo o que é bem, e o princípio supremo da sociedade contemporânea.

Assim sendo, será que o Bem como primeiramente idealizado inexiste na cidade? Ou a restrição à razão e ao conhecimento é o Agathón, a tendência das coisas?

Nota do autor: Talvez o baixo aprimoramento técnico e o curto prazo para edição fizeram do meu vídeo uma grande interrogação para todos os presentes na exibição. Faz-se necessário ressaltar a expectativa criada, durante a exibição, por filmes com teor humorístico. Dessa forma, uma apresentação experimental passa a assumir um tom relativamente austero que pode ter causado alguma má impressão. Mesmo assim, pude captar enquanto tocava que a experiência de musicar um vídeo sobrepondo sonoridades torna tudo mais confuso, como a cidade em que vivemos, Bem ou Mal...

domingo, 16 de maio de 2010

Sunny day


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The very essence of romance is uncertainty.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Quer que eu explique?



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Eu sou o último homem a ostentar o direito de ser pessimista.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Sujeira

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Não tenho mais vontade de contar minhas histórias.
Nem de esconder minhas mentiras.

Deixo o mundo sabendo que eu sou um mentiroso.
E minto com tamanha habilidade, que acredito no que digo. E a verdade é uma meia mentira, e a mentira, uma meia verdade. Tenho medo de encontrar quem realmente está ao meu lado: cansado e com a cabeça doendo. Dá pra entender como essa cidade cansa. À noite, a cidade dança. Com o Sol, a cidade mansa.

sábado, 1 de maio de 2010

Pessoa


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Tenho a mania de transformar meus passos em narrativa. O movimento mais banal eternizado em linhas ainda sem rumo. É uma mania minha. Parece que assim minha vida se torna algo importante, capaz inclusive de atrair a atenção de um narrador. Deste modo, alguém se preocupa com o destino do personagem protagonista da história de minha vida. Depois disso, parece que minha vida sempre se passou debaixo do tapete; e agora tenho as chagas reveladas, de um corpo pútrido, feridas purulentas, a cútis anêmica; velado solitariamente o cadáver de finos fios de cabelos desregrados e sebosos; de olhos esbugalhados em busca de luz, as pupilas dilatadas; a boca entreaberta de lábios ressequidos e rachados, dos dentes podres: a face de rugas de um doente terminal.

Uma vida em terceira pessoa, como alguém voando ao meu redor.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Roupa Suja


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É claro que a ausência foi sentida. Foi doída. Jogo de gato e rato, sempre sem vencedor. Foi uma semana do cão; sem noite nem dia; sem choro nem vela. Manhãs pesadas, de ossos congelados e frágeis; de pele seca e grudenta, de corpo colado à cama; olhos que ardem não pelo vento cortante, mas por salmoura e pranto. As pernas não respondem aos estímulos: seguem seu caminho, me levando aonde não quero ir; a garganta seca impede o grito, e o desespero fica contido numa redoma intocável. Tardes velando o leito do amado morto, buscando em banalidades alguma satisfação que preencha, ao menos por um instante, o vazio. O corpo cansado, não tem consciência do quanto dói; as juntas fazem barulho, arranha, risca, enrosca, rasga. A papelada que vai se acumulando, fazendo pilhas de procrastinação, que, com muito talento, foram erguidas por aquele que agora padece de um pouco de atenção. O ser vazio adentra a noite, enchendo-o de vida; coração batendo veloz na expectativa de ouvir o telefone tocando, ou o celular vibrando, fazendo vibrar consigo a mesa, o chão e as paredes, e o morador. Troca os canais da televisão, como se não estivesse nada passando. Folheia uma revista com nenhum artigo descente. “Não se fazem publicações como antigamente”. O telefone mudo. Vai até a cozinha, despeja água gelada pela garganta pelo bico da garrafa mesmo. “Não tem ninguém vendo... Se ela visse isso, acharia natural. Minha mãe não.”. A mãe enche a caneca de água e leva ao fogo. A mão! Saudades da mãe... Do irmão, do pai... Saldade. “É, faltou sal hoje no arroz...”. Verdade é que ta tudo sem sal, sem gosto, sem graça. A roupa acumulando no tanque. O telefone nem toca mais! Faz silêncio, como se ninguém estivesse aqui, e o chão de granito escuro congela os pés, que acabam doendo de tanto frio. Sempre tive frio nos pés. “Azar...”. O dedão cutuca um floco de poeira, que escapa e vai se esconder em um canto, junto aos demais. Ficam flocos de poeira pelos cantos, sujando as meias, as calças e as cuecas do mal aventurado que experimenta o contato com o chão congelante. O telefone tocou. A água ferveu. “Alô?”. “Oi.”. ”O que ta rolando?”. “Nada...”. Pois é, nada ta rolando. O telefone fica mudo. Descansa no gancho. A roupa no tanque. Um balde cheio de água, um pouco do sabão em pó que faz minhas mãos descascar. Despeja a água turva e tudo vai embora pelo ralo, para voltar, talvez no futuro, com a chuva que me atormenta. Um raio. O chão tremeu. O celular nunca mais tocou.